Sem qualquer motivo, acordei estupidamente nervosa hoje. Entrei num ônibus vazio, mas, diferente do meu usual comportamento, preferi me sentar ao lado de uma mulher. Ela me lançou um leve sorriso. Percebi: cinquenta e poucos anos, cabelos claros, vestido preto, colar de pérolas. Fones de ouvido. Sinatra. Minutos depois, em lindos vestidos de gala, bailávamos com nossos amores pelo mais belo salão de New York.
17/11/2008
15/11/2008
Um Estado de Fracos
Vivemos num Estado de Fracos. Ontem, esta foi minha constatação ao escutar a história de um conhecido. Jovem e muito entusiasmado, ele conseguiu entrar no Mestrado da Universidade mais prestigiada do país. Professor de Direito de outra instituição, ao ver no site desta que os currículos de seus colegas continham informações sobre suas formações acadêmicas, requereu à secretaria do curso que colocasse na sua biografia a sua titulação. Dias depois, ao entrar novamente no site, descobriu que todos os currículos já não mais mencionavam as Universidades nas quais os professores tinham completado sua formação. A explicação para isso? Este meu conhecido havia deixado os colegas numa situação difícil, pois ele era oriundo de um lugar com muito mais reconhecimento e isso incomodava os outros docentes. Portanto, para não ocorrer desentendimentos, a secretaria achou por bem não mais fornecer tal tipo de informação.
Bem vindos ao Brasil: um país que não desculpa aqueles que são bem sucedidos. Ou melhor: um país hipócrita que se vale da roupa da humildade para relativizar os méritos daqueles que realizam seus sonhos e objetivos.
No Brasil, costuma-se adotar um discurso desprendido, critica-se qualquer um que tenha dinheiro. Utilizando-se de uma lógica excludente, o "povo brasileiro" atribui a culpa de sua pobreza a qualquer um que tenha mais recursos. Como se estes fossem os únicos e verdadeiros responsáveis por sua desgraça. Como se estes tivessem que carregar nas costas uma cruz por terem tido força suficiente para seguir em frente. É claro que existem empresários terríveis e inescrupulosos. Mas será que todos no mundo só concretizaram seus objetivos pisando nos outros? Claro que não! Outra coisa: se somos tão desprendidos, se consideramos o dinheiro como algo supérfluo, " coisa de americano", por que nos preocupamos tanto com isso?
No Brasil, se você consegue ter uma boa formação acadêmica, ao invés de ter seus méritos reconhecidos, escutará alguém relativizar sua conquista. Sempre terá alguém que dirá que tal pessoa " estudou porque podia" ou que "grandes coisas isso, vai virar um desses idiotas que nada conhece da vida". Sim, é verdade, sabemos o quão esse discurso é vazio. Mas o problema é que sentimos muita pena desses fracos, somos paternalistas, fingimos acreditar no que eles dizem.
Recentemente, uma pessoa me falou que o Exame de Ordem era um absurdo, já tinha prestado quatro vezes e perdido. Na mesma hora, respondi: quando você estudar direito irá passar. Devo ter sido considerada antipática, mas o que eu deveria fazer? Negar a importância do exame? Ser solidária à ignorância alheia? Desconhecer o mérito daqueles que se esforçaram e conseguiram passar?
No Brasil, se você é uma pessoa considerada bonita deve entender como naturais abusos de todos os tipos. Isso inclui grosserias masculinas e situações muito desagradáveis. Sim, sabemos que tudo é fruto de uma "inveja institucional", já irraigada. Mas por que mesmo fechamos os olhos para isso e ficamos desculpando estes outros tão preconceituosos? Se reclamamos tanto da impunidade que toma conta do país, por que agimos da mesma forma na nossa esfera privada?
Tenho uma teoria: somos muito narcisistas. Gostamos de parecer superiores e, ao mesmo tempo, humildes. Por isso, não colocamos ordem na casa. Por isso, acabamos nos nivelando com aqueles que tanto desprezamos: os fracos.
Bem vindos ao país onde ninguém liga para dinheiro, onde não é bom estudar, ser inteligente ou bonito. Bem vindos. Mas não esqueçam de trazer suas máscaras. Senão nesta festa vocês não irão entrar.
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Renata Belmonte
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9:32 AM
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12/11/2008
Culpa de Eva e minha mãe
Sendo eu extremamente alérgica à esmalte e tendo achado linda a edição limitada da Risqué, resolvi comprar dois da cor Havana para dar de presente para Eva e minha mãe. É verdade: sou uma filha e amiga muito generosa.
Minutos depois, estando eu muito próxima do salão de beleza, resolvi parar para conversar com minha manicure, pessoa por quem nutro enorme carinho. Logo depois, para não perder a viagem, achei por bem fazer as unhas.
Considerando o fato de que eu estava sem os meus esmaltes hipoalergênicos, sugeri que ela pintasse as minhas unhas de Havana, pois, por pura coincidência, eu tinha dois na bolsa. Aterrorizada, ela disse que não iria fazer isto de jeito nenhum, jamais seria cúmplice da minha desgraça. Mas, após pintar minhas unhas com uma camada do seu hipoalergênico muito sem graça, ela se sentiu bastante comovida com a minha situação. Sabe, Lu? Ando me sentindo muito feia, tenho saudades da minha família, é muito difícil viver numa cidade tão distante... Seria tão bom colocar uma cor na minha vida!
Tá bom, Dona Renata... Vou colocar um pouco do Havana! Vou tentar não encostar na pele, só um pouquinho não deve fazer mal.
Tendo eu não dormido na noite passada por conta de uma alergia inesperada, que me deixou com as pálpebras inchadas e avermelhadas, machucou meu nariz e ressecou minha garganta, ainda no meio da madrugada, injustamente, fui obrigada a escutar:
-Renata, você pintou suas unhas com algum outro esmalte?
-Como assim, amor?
-Não minta. Eu escutei você falando para sua mãe que comprou um esmalte para ela. Me responda: você usou o bendito esmalte?
- O universo e suas coincidências acabaram me obrigando! Além do mais, ando me sentindo muito feia, com saudades da minha família... Pintei para ficar bonita para você.
- Francamente! Deixe as suas histórias para o Vestígios da Senhorita B.
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Renata Belmonte
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5:01 PM
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10/11/2008
Estréia do curta Vestígios da Senhorita B
Um vestido, uma cama, um livro. Vestígios? Alguém que foge sem que se saiba o porquê. Sim, este é o principal mote do curta-metragem Vestígios da Senhorita B.
Um dos vértices do Triângulos do Real, projeto concebido pela escritora Renata Belmonte (também roteirista, atriz e produtora do curta-metragem), o filme Vestígios da Senhorita B. busca recontar através de imagens uma história sobre o tempo. Apenas cinco minutos são o suficiente para se falar de tal tema tão precioso? Ora, morre-se muito durante tal breve lapso temporal.
Dirigido por Franklin Albuquerque, o Vestígios da Senhorita B. foi realizado na cidade de Salvador em Janeiro de 2008, tendo sido a Sala do Coro do Teatro Castro Alves e o restaurante Chez Bernard suas locações. No elenco, destaca-se a presença de Rosalva Leal Conceição, avó de Renata Belmonte, que divide com a neta a função de personagem oráculo do trabalho.
Tal curta-metragem, em conjunto com o blog e o livro de mesmo nome, conta uma história que todos intimamente já devem conhecer. Qual? Sejam bem-vindos ao mundo da Senhorita B.
Meu curta, o Vestígios da Senhorita B. , será exibido no dia 14 de novembro às 16:00 horas na sala Walter da Silveira/Alexandre Robatto. Ele faz parte do Panorama Nacional da 12ª edição do Festival 5 Minutos. E, um dia antes, às 15:00, no mesmo local, vocês podem conferir o filme do querido Nelson Magalhães Filho. (com roteiro também de Pablo Sales, outro grande amigo).
PS: Queridos, ironicamente, é muito pouco provável que eu esteja presente. Mas minha avó com certeza estará. Bjs para todos!
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Renata Belmonte
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7:58 PM
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07/11/2008
Antevasin
Desde que me reconheço como gente, tenho a sensação de que não há lugar para mim neste mundo. E tal situação sempre me gerou um extremo desconforto. Sim, é verdade: sou absurdamente amada e isso atenua minha sensação de pária. Mas não posso deixar de perceber que nunca me senti exatamente identificada com as pessoas ou coisas que me cercam. Quando eu era criança, detestava tal condição, queria me sentar na mesa dos adultos. Só que lá também não encontrava o que desejava, pois ficava evidente que aquele espaço não me oferecia o que tanto eu buscava. Sempre fui estrangeira na Bahia, ser excêntrico nas festas de família. Extremamente libertária para uns, conservadora ao máximo para outros. E, desde que mudei de cidade, percebo com ainda mais clareza esse olhar do outro. Provoco estranheza por não ser aquilo que todos esperam de mim.
Muito pior do que não ser aquilo que se espera é não encontrar aqueles que espero. Ressalto que adoro a maioria das pessoas que conheço. Meu problema é que não consigo me comunicar, parece que falo outra língua, nunca sou compreendida. E nisso consiste minha grande solidão. A impossibilidade de ser parte de um grupo me impede de dividir com outro tudo aquilo que me é caro.
Gostar de muitas coisas, transitar entre espaços distintos, sem jamais pertencer a nenhum deles é minha marca pessoal. Meses atrás, minha mãe, conhecedora dessa minha insatisfação, me deu de presente um desses bestsellers místicos. Insistiu que eu deixasse de lado meu preconceito e que fizesse a leitura, assegurou que me faria bem. Tinha razão. Num determinado momento do livro, a autora, dona de uma angústia próxima da minha, descobre uma palavra em sânscrito que a define: Antevasin. A partir disso, sente-se parte de algo, inscreve-se na vida, encontra alguma paz.
Antevasin significa aquele que habita a fronteira e que, de onde se encontra, consegue ver vários mundos. Fronteira. Sim, talvez esse seja também o meu lugar.
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Renata Belmonte
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11:37 AM
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05/11/2008
Go Obama!
Estive em Nova Iorque em agosto de 2007 e setembro deste ano. E, apesar do curto espaço temporal entre as duas viagens, pude perceber com clareza a enorme crise que se abateu sobre os Eua. Não falo unicamente da situação financeira. Trato do maior desafio do país: aceitar a alteridade como única forma possível de construção de uma nação melhor.
A eleição de Obama é o primeiro passo para a concretização desse ideal. Jamais imaginei ver um negro eleito para a presidência dos Eua. No racismo de origem, a segregação racial é notória, terrível. Fico encantada com esse homem que, apesar de todas as dificuldades, acreditou em si mesmo e foi se capacitar, algo que considero primordial para o exercício de qualquer profissão.
Obama não foi eleito por causa de um discurso de vitimização ou qualquer coisa do tipo. Obama foi eleito porque é um homem competente, preparado, carismático. Seu discurso não visa destruir ou ampliar dicotomias, mas, sim, o respeito às escolhas de cada um.
Sempre detestei política. Mas, pela primeira vez, apesar de não ser americana, me senti verdadeiramente representada. Sei que Obama é apenas um homem e não um candidato ao posto de santo. Posso me decepcionar. Mesmo assim, deixo aqui registrada a minha alegria no dia de hoje.
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Renata Belmonte
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2:27 PM
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03/11/2008
Porque recordar é viver...
Vilda, viu que certas coisas só têm graça com você?
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Renata Belmonte
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7:33 PM
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31/10/2008
Senhoras e senhoritas,
Vamos combinar de ir para praça queimar uns sutiãs?
(Como já disse o André Leones, a Sarah Palin só pode ser algum novo personagem do Woody Allen...)
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Renata Belmonte
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11:50 PM
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28/10/2008
J, filho de M
Vocês se lembram daquela frase que aprendemos aos doze anos e que ficávamos repetindo no playground sem parar? Aquela que proclama: "o que vem de baixo não me atinge". Pois então: eu a internalizei com perfeição. Talvez pelos dez anos de análise. Talvez porque, na infância, como vocês perceberão, eu acreditava piamente em tudo que me era dito.
Recentemente, minha querida amiga Aeronauta, me pediu que eu escrevesse sobre quando eu era criança. Pois bem, acabei me lembrando que eu era uma menina muito medrosa. E me recordei de dois episódios que foram verdadeiras exceções ao "o que vem de baixo não me atinge."
O primeiro deles se deu num conhecido restaurante de Salvador. Eu, aos quatro anos, tinha verdadeiro pavor da criatura que abria a porta dele. Isso mesmo: o monstro da minha infância era o anão do Baby Beef.
Ele era(é?) um homenzinho muito, muito pequenininho. E, bem mais terrível do que ter que ver aquele anão todo domingo, era a pressão que os adultos faziam para que eu fosse brincar com ele. Sempre petrificada de horror, sentava na cadeira de couro e observava as outras crianças correndo felizes, pertubando a vida daquele pobre ser. E, certo dia, uma delas, descobrindo meu desespero, afirmou: o anão lhe lançou uma maldição. Você ficará como ele, jamais crescerá.
Pronto. Isso foi o bastante para que eu começasse a chorar compulsivamente. Era louca para ser adulta e, agora, descobria que aquela criatura miserável iria impedir isso de acontecer! Foram longas as noites de medo e muitos pedidos para Deus. Até hoje, evito almoçar naquele lugar.
Mas é o segundo episódio que mais quero contar. Aos seis anos, gostava muito de ficar na casa da minha avó. E, certo dia, entro na sala de jantar e vejo minha mãe, minha avó e minhas três tias, arrasadas, repetindo sem parar: Ohhhh, J, filho de M? Drogado? Que coisa terrível!
O clima era realmente bastante fúnebre. Uma das minhas tias tinha lágrimas ns olhos. Compreendi que ser drogado era algo muito ruim, quase como ser um vampiro. Mas não sabia exatamente o que tal palavra significava. Lembro-me ainda com perfeição de minha mãe falando: Mas que desgraça se abateu sobre essa família! Renata, minha filha, não aceite nada que J. queira lhe dar.
J, filho de M, era um bonito adolescente que morava no prédio de minha avó. Com alguma frequência, brincava comigo, adorava crianças. Recordo-me do calafrio que senti ao pensar nisso. Que perigo! Nunca, nunca mais deixaria J se aproximar.
Pois então. Alguns meses se passaram. E, numa tarde, desci para o play do prédio de minha avó para esperar meu pai me buscar. Minha avó desceria em alguns instantes, iria para um chá de cozinha, estava toda arrumada, vestia meia-calça e usava um sapato alto para mascarar sua baixa estatura.
Eu aguardava, alegremente, a chegada de meu pai. Brincava com minha boneca favorita. Mas eis que, de repente, escuto uma voz chamar meu nome. Olho para trás. Congelo. J, filho de M, está vindo na minha direção.
Horrorizada, tenho pouco tempo para pensar. Vejo minha avó saindo do elevador. Não tenho outra alternativa. Corro em alta velocidade, pulo em cima dela. Segundos depois, caímos juntas no chão.
Minha avó, com a meia calça rasgada, muito irritada. J., ajudando-a a se levantar, rindo sem entender nada. Minha avó desistindo de ir ao chá de cozinha. Meu pai, aborrecido: essa menina está mesmo muito mal-educada! Eu, de castigo, sem compreender o motivo disso. Minha avó, agradecendo: obrigada, J. Você é um bom menino.
O que vem de baixo não me atinge? Sei mais não. Escrevendo esse texto, voltei a ficar com raiva de J., do anão, mas, principalmente, de minha avó e meus pais.
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Renata Belmonte
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10:33 AM
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